A terrível (e incrível) história de Tala Raassi

29 Set

Tala Raassi era uma menina de 15 anos comum, como qualquer outra, que morava no Irã e seguia fielmente as regras do islamismo. Mas quando Tala se descuida, e fica de saia durante seu 16ª aniversário na casa de uma amiga, junto com outras pessoas de sua idade, a polícia bate a sua porta e invade o local. A menina corre com uma das amigas para a porta dos fundos, mas não consegue escapar, sendo pega por um dos policiais. O resto da história, você pode “ouvir” da própria boca de Tala, em uma entrevista que ela deu para a revista Marie Claire:

Essa é uma memória que definiu minha vida: Estou em um longo e escuro corredor, presa a uma amiga, enquanto escutamos o som horrível e assustador de dois outros amigos gritando de dor. Estou em uma cela na capital do Irã, Tehran, e estou para ser severamente punida: 40 chicotadas. Meus amigos saem de um quarto no corredor, lágrimas escorrendo pelos seus rostos e sangue nas costas de suas camisas. Eu mal posso respirar enquanto espero os guardas chamarem meu nome. Finalmente, é a minha vez. Minha amiga e eu, ainda algemadas, entramos no quarto de tortura juntas.

Duas guardas de meia-idade sem expressão, vestindo um chador e um manto negro longo, tira nossas algemas e nos manda deitar com o rosto para baixo. Vamos ser chicoteadas nas nossas costas. Os guardas pegam dois chicotes de couro e mergulham na água, para fazer com que doa mais. Eu viro a cabeça e vejo eles jogando os chicotes no ar, e então, eu fecho meus olhos, com muito medo. As primeiras das 40 chibatadas vem com força nas minhas costas. Eu sinto um choque de dor. Estou usando uma camisa de algodão, primeiro eu acho que assim é melhor, mas depois, descubro que na verdade, é pior. Como as chibatadas vem uma após a outra, a camiseta começa a grudar nos cortes nas costas, e o chicote puxa a camisa, a desgrudando após cada chicotada, intensificando a dor. (…)

A pior parte é saber que minha família estava sentada do lado de fora do quarto, escutando o chicote me torturar. A dor emocional é quase pior do que a física.

Tudo começou cinco dias antes, no dia do meu aniversário de 16 anos. Meu Doce Dezesseis Anos começou como devia: docemente.
Dois de nós levamos todos para a casa de um grande amigo meu, para minha festa. Eu estava vestindo o que qualquer jovem tradicional iraniana usaria: um lenço sobre o meu cabelo, um casaco preto, saia, e por baixo, minha saia. Quando eu cheguei na casa do meu amigo, eu troquei de roupa, vestindo apenas uma camiseta preta e minissaia. Havia cerca de 30 amigos na festa, meninos e meninas; ouvimos música e conversamos. Foi divertido, inocente, sem álcool ou drogas.

Sem avisar, nem mesmo uma batida na porta, a polícia religiosa – grupos financiados pelo governo que impõem a moral islâmica — abrem a porta e começam a gritar. É ilegal no Irã vestir roupas “indecentes” como minissaias, ouvir música que não é previamente aprovada pelo governo e festejar com pessoas do sexo oposto – apesar das pessoas terem encontros como esse na privacidade de suas casas o tempo todo. (Depois descobrimos que um garoto que não foi convidado para a festa nos denunciou, por vingança; ele pensou que a festa ia ser simplesmente parada.) Eu entrei em pânico e corri para a porta dos fundos com uma amiga, o que é provavelmente a pior coisa que poderíamos ter feito. Mas eu estava com medo; a polícia religiosa com suas longas barbas escuras, são brutais.

(…) Quando gritaram “Parem ou iremos atirar”, eu obedeci, porque sabia que eles iam realmente fazer isso.
Um policial ficou atrás de mim e bateu com a sua arma na minha cabeça tão forte que eu caí.
Então os policiais me arrastaram até a casa do meu amigo, onde os policiais revistaram todas as bolsas e bolsos. Um dos policiais achou meu Koran (que é como um livro sagrado), que eu sempre carrego comigo; isso me fez sentir segura. Ele jogou o Koran na minha cara e me perguntou se eu sabia o que ele significava. (Na sua cabeça, não era possível usar roupas “na moda” e também ter fé). Então ele começou a bater na minha cabeça com sua caneta, antes de me algemar com uma amiga e colocar todo mundo em uma van.

(…)  colocando minhas 15 amigas e eu em um quarto, infestado de ratos – sem cadeiras, sem camas, só um frio chão de concreto. Eu olhei ao redor e vi uma mulher grávida e uma mulher com um bebê, juntas com várias outras mulheres. Uma mulher foi claramente puxada do seu casamento, ela sentou-se calmamente no chão, em seu vestido branco esvoaçante. Eu me perguntava o que ela tinha feito de “errado”.

Nós ficamos a noite toda no chão, sem comida ou água. Não tínhamos ideia do que iria acontecer conosco, ou por quanto tempo teríamos que ficar ali. Meus amigas e eu ficamos quietas, tentando não chamar atenção de ninguém. Nós podíamos ouvir ratos andando pelo chão e gritos no corredor. Se precisássemos usar o banheiro, tinhamos que pedir permissão ao guarda. Tinham banheiros no corredor, sem pia.

No outro dia, minha mãe veio com outras mães, e eu me senti bem ao vê-la. Ela trouxe minha comida favorita: arroz e kebabs. (…)

Dois dias se transformaram em três, e então, em quatro.

Retirei algumas partes porque ia ficar muito grande, mas não foi nada de super importante.

Clique AQUI para ver a entrevista original (em inglês e sem cortes), no site da revista.

Bom, vocês devem estar se perguntando “porque você postou essa coisa horrível aqui?”. Primeiro, porque as pessoas devem se informar do que está acontecendo com outras pessoas, em outros lugares e outras religiões/culturas. E segundo, porque o final da história foi bonito, e está diretamente ligada com o assunto principal do blog: Moda.

Tala Raassi, a menina, agora com 27 anos que sofreu tudo isso por ter usado uma minissaia, ter escutado música ocidental e ter festejado com garotos foi para os EUA, começar do zero (ela nem sabia inglês, então teve aulas lá), desistiu do seu sonho de fazer faculdade de Advocacia e resolveu que queria fazer algo que inspirasse mulheres. Então, nada mais apropriado do que moda (quando pequena, Tala costurava roupas para suas bonecas, imitando sua mãe, e foi assim que decidiu que seria estilista).

Hoje em dia, Tala tem uma linha de roupas chamada Dar Be Dar, ou seja “De porta em porta” em persa. Clique AQUI para conhecer o trabalho da moça.

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Uma resposta to “A terrível (e incrível) história de Tala Raassi”

  1. Rapha Setembro 30, 2010 às 22:27 #

    Que história linda (isso porque acabou bem, né?) Muito legal mesmo!! Parabéns pelo posst! 😉

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